Cientistas concluem que as primeiras ferramentas

04/06/2019

Cientistas concluem que as primeiras ferramentas

​​​​​​​Um novo sítio arqueológico na Etiópia, descoberto por uma equipa internacional de cientistas, de que faz parte Vera Aldeias, do Centro Interdisciplinar de Arqueologia e Evolução do Comportamento Humano (ICArEHB) da Universidade do Algarve, Portugal, mostra que as primeiras ferramentas em pedra lascada datam de entre 2,61 e 2,58 milhões de anos. 

Análises feitas pelos investigadores, publicadas esta semana na revista Anais da Academia Nacional de Ciências (Proceedings of the National Academy of Sciences), sugerem que ferramentas em pedra podem ter sido inventadas muitas vezes e de várias formas antes de se tornarem fundamentais para o desenvolvimento da linhagem humana.

O local de escavação, conhecido como Bokol Dora 1 ou BD 1, está próximo do sítio onde se encontrou em 2013 o fóssil mais antigo atribuído ao nosso género Homo, descoberto em Ledi-Geraru, na região de Afar, no nordeste da Etiópia. O fóssil, um osso da mandíbula, data de há cerca de 2,78 milhões de anos atrás, ou seja, cerca de 200 mil anos antes das ferramentas de pedra lascada conhecidas até então. A equipa de Ledi-Geraru tem trabalhado nos últimos cinco anos para descobrir se existe uma ligação entre as origens do género Homo e as origens do uso sistemático de ferramentas em pedra.

Um passo significativo nessa busca foi dado quando o geólogo Christopher Campisano, da Arizona State University, encontrou vários instrumentos de pedra lascada.

"No começo, encontrámos vários artefactos na superfície, mas não sabíamos de que sedimentos vinham", diz Campisano. “Mas quando olhei para cima na encosta de uma pequena ravina, vi artefactos parcialmente expostos a sair de uma camada de argila. Escalei a encosta e encontrei duas belas ferramentas de pedra parcialmente expostas pela erosão”.

Foram necessários vários anos para escavar à mão vários metros de sedimentos antes de se expor a camada arqueológica com ossos de animais e centenas de pequenos artefactos em pedra lascada. Estes artefactos são a mais antiga evidência do fabrico e uso de utensílios em pedra pelos nossos antepassados diretos. A excelente preservação dos artefactos deve-se ao facto de terem sido depositados perto de uma zona lacustre.

“Observando os sedimentos ao microscópio, pudemos ver que o local esteve exposto durante muito pouco tempo. Essas ferramentas foram deixadas pelos primeiros humanos perto da água e depois rapidamente enterradas. O sítio permaneceu assim durante milhões de anos”, observou a geoarqueóloga Vera Aldeias do ICArEHB, Universidade do Algarve.

​​​​​​​Kaye Reed, diretora do projeto de pesquisa Ledi-Geraru e professora no Arizona State University’s Institute of Human Origins, juntamente com Campisano, estuda a ecologia desta região e observa que os animais encontrados juntamente com as ferramentas eram semelhantes àqueles associados aos primeiros fósseis de Homo, descobertos apenas a alguns quilómetros de distância.

​​​​​​​“Os primeiros humanos que fizeram estas ferramentas de pedra viviam num habitat totalmente diferente do da 'Lucy' ”, diz Reed. "Lucy" é o nome pelo qual é conhecida a espécie mais antiga de hominídeos conhecida como Australopithecus afarensis, que foi descoberta no local de Hadar, na Etiópia, a cerca de 45 km a sudoeste de BD 1. “O habitat mudou de arbustos com árvores ocasionais e florestas ribeirinhas para pradarias abertas com poucas árvores. Até as girafas fósseis estavam a comer ervas!”

Para além de datar uma cinza vulcânica depositada a vários metros abaixo de BD1, os geólogos do projeto analisaram a assinatura magnética dos sedimentos do local. Durante a história da Terra, a polaridade magnética inverteu-se em intervalos que podem ser identificados. Outros sítios arqueológicos já conhecidos, próximos da idade de BD 1, estão em sedimentos de polaridade “invertida”. No entanto, os artefactos de BD 1 estão em sedimentos de polaridade “normal”. A reversão de “normal” para “invertida” aconteceu há cerca de 2,58 milhões de anos, logo, os geólogos sabiam que os artefactos de BD 1 são necessariamente mais antigos que todos os sítios anteriormente conhecidos.

Anteriormente era conhecido um tipo diferente de ferramentas, usadas para percussão e encontradas no Quénia que datam de há 3,3 milhões de anos (conhecidas como o “Lomekwiense”). Também se conhecia evidências de ossos de animais com marcas de corte encontrados na Etiópia, que, conjuntamente, demonstram uma grande antiguidade de uso de ferramentas pelos nossos antepassados. No entanto, devido às recentes descobertas de ferramentas utilizadas por chimpanzés e macacos atuais, levantaram-se dúvidas sobre os autores dessas ferramentas pré-históricas. 

Arqueólogos que trabalham no local do BD 1 questionaram-se de como sua nova descoberta de ferramentas em pedra se encaixava neste quadro cada vez mais complexo. O que eles descobriram foi que, não apenas essas novas ferramentas eram os artefactos mais antigos atribuídos a uma cultura conhecida como o Olduvaiense, uma tecnologia originalmente nomeada depois do achado de Olduvai Gorge na Tanzânia, mas também distintas de ferramentas feitas por chimpanzés ou macacos. 

“Esperávamos ver alguma indicação de uma evolução do Lomekwiense para estas primeiras ferramentas de Oldovaiense. No entanto, quando olhámos atentamente para os padrões, havia muito poucas semelhanças com o que se conhece de sítios arqueológicos mais antigos ou com as ferramentas feitas por primatas modernos”, disse Will Archer do Max Plank Institute for Evolutionary Anthropology em Leipzig e da University of Cape Town.

As maiores diferenças parecem ser a capacidade dos nossos antepassados para produzirem ferramentas de gumes afiados de forma sistemática a partir de grandes nódulos de pedra. Pelo contrário, os chimpanzés e outros primatas geralmente usam utensílios através de percussão para processar alimentos como nozes e moluscos, o que aliás parece ter sido o caso dos utensílios do Lomekiense com 3,3 milhões de anos. 

Mas algo mudou há 2,6 milhões de anos atrás, com os nossos antepassados a tornarem-se mais proficientes no talhe de utensílios em pedra lascada. Os artefactos de BD 1 atestam esta mudança. 

Aparentemente, esta alteração no talhe de instrumentos lascados é concomitante com a mudança morfológica ao nível da dentição desses hominínios, como está patente na mandíbula de Homo de Ledi-Geraru. Há medida que os nossos antepassados deixaram de utilizar a sua dentição para processar os alimentos antes de os comer e a substituíram com o uso de utensílio de pedra lascada, começamos a ver uma redução no tamanho dos dentes. Estes dados demonstram que a nossa evolução biológica está intimamente ligada com o nosso desenvolvimento tecnológico desde há 2,6 milhões de anos atrás.

As diferenças entre os utensílios de BD1 e aquelas conhecidas anteriormente do Lomekiense sugerem que a invenção de ferramentas em pedra terá acontecido em mais do que um momento no passado. David Braun, um arqueólogo da George Washington University e o autor principal deste estudo, disse: 

“Dado que espécies de primatas atuais usam rotineiramente percutores em pedra para explorar recursos, é muito possível que os nossos antepassados africanos tenham desenvolvidos várias formas de usar artefactos de pedra para extrair recursos de seu ambiente. Se a nossa hipótese estiver correta, então esperamos encontrar algum tipo de continuidade na morfologia dos artefactos a partir de há 2,6 milhões de anos atrás, mas não antes. Para testarmos esta hipótese precisamos de encontrar mais sítios arqueológicos destas cronologias.”

​​​​​​​A partir desta data, e como parte da condição humana, parece ter havido um investimento de longo prazo no uso de ferramentas. Investigações de campo continuam na área do projeto de Ledi-Geraru e já produziram mais dados inéditos sobre os padrões de comportamento desses nossos antepassados. Trabalhos de campo retomam ainda este ano.  

Esta investigação foi apoiada pela Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos e pela John Templeton Foundation. O artigo “Earliest known Oldowan artifacts at >2.58 Ma from Ledi-Geraru, Ethiopia, highlight early technological diversity,” será publicado nos Anais da Academia Nacional de Ciências (Proceedings of the National Academy of Sciences) a 3 de junho de 2019.

Legenda fotografias: 

Imagem 1: A large green artifact found in situ at the Bokol Dora site. Right: Image of the same artifact and a three dimensional model of the same artifact.(Photo Credit David R. Braun)

Imagem 2: Blade Engda of the University of Poitiers lifts an artifact from 2.6 million year old sediment exposing an imprint of the artifact on the ancient surface below. (Photo credit David R. Braun)

Imagem 3: An image of the Bokol Dora excavation during the 2015 excavation. Stones were placed on the contact surface during the excavation to preserve the fragile stratigraphic contacts.(Photo credit: David)