Estudo demonstra que douradas podem viver mais felizes em aquacultura

Estudo demonstra que douradas podem viver mais felizes em aquacultura

​​​​​​​Um estudo inovador vem revelar que a adoção de medidas muito simples de enriquecimento ambiental, isto é, a introdução de estruturas para a melhoria do ambiente nas jaulas de cultivo, contribui significativamente para o bem-estar das douradas de aquacultura.

A dourada é uma das espécies mais importantes na aquacultura europeia. A aquacultura intensiva de dourada em jaulas traz desafios a nível de bem-estar, que têm implicações não só a nível ético na qualidade de vida que se dá aos animais que criamos para consumo humano, mas também a nível de qualidade alimentar e mesmo em termos de saúde pública.

Um dos meios para melhorar a qualidade de vida e o bem-estar desses animais criados em cativeiro é o enriquecimento ambiental, que deverá levar em conta aspetos práticos da indústria. Os investigadores já tinham indícios que a introdução de estruturas teria um efeito positivo nas douradas criadas em cativeiro, mas nunca um estudo tinha ido tão longe como o recentemente publicado pelo grupo Fish Ethology and Welfare, do Centro de Ciências do Mar (CCMAR) liderando uma equipa internacional, que conclui que o aumento da complexidade do ambiente de cultivo através de estruturas muito simples melhora o comportamento, o estado mental e a saúde do cérebro nas douradas.

As douradas usam estruturas no fundo do mar (algas ou rochas, por exemplo) quando estão no meio selvagem, mas esse não é o ambiente que têm nas jaulas e tanques de cultivo. Esta “pobreza” do meio em que são criadas pode causar frustração e stress, comprometendo o crescimento e a saúde dos peixes. O enriquecimento ambiental consistiu, neste estudo, em pendurar simples cordas de sisal no centro das jaulas, desde a superfície quase até ao fundo, de forma a reproduzir alguma da complexidade do meio em que as douradas habitam naturalmente.

Os resultados não poderiam ser mais reveladores: as douradas expostas a este enriquecimento ambiental apresentaram um maior comportamento exploratório, memória espacial, orientação e capacidade de aprendizagem, lidando melhor com o meio envolvente, quando comparadas com as que foram sujeitas a um ambiente semelhante ao que se encontra nas condições comerciais.

Além disso, os peixes criados com enriquecimento ambiental apresentaram aumento de neurotransmissores associados a estados mentais felizes, bem como a maior atividade antioxidante em todo o cérebro, o que revela melhor saúde cerebral. Segundo os autores do estudo, peixes que estão em melhores condições mentais terão mais resistência a doenças, crescem melhor e tenderão a ser mais saudáveis.

Estas descobertas têm impacto não só do ponto de vista científico (a nível do funcionamento do cérebro) mas também na perspetiva da indústria da aquacultura, que poderá implementar estruturas semelhantes, sem grande alteração nos protocolos de trabalho, e conseguir melhorar de forma substancial a vida dos animais criados em cativeiro.

No âmbito desta linha de investigação, os investigadores já conseguiram implementar estruturas práticas de enriquecimento ambiental em tanques de dimensão comercial, em estreita colaboração com a indústria aquícola internacional, e observaram resultados semelhantes aos obtidos com os grupos de douradas desta publicação mais recente.

“Há um conjunto de estudos, que apontam não só para os efeitos benéficos deste tipo de medidas mas também para a viabilidade da implementação de enriquecimento ambiental a nível comercial”, refere João Saraiva, um dos autores.

A indústria da aquacultura é altamente competitiva. Uma melhoria do bem-estar dos peixes de cultivo pode significar acesso a novos mercados, melhor qualidade do produto e eventualmente maior lucro - tudo isto melhorando a vida dos animais em cativeiro.

Há uma preocupação crescente com o bem-estar animal tanto da parte dos órgãos reguladores como dos consumidores, motivo pelo qual a aplicação destas melhorias na aquacultura, pode trazer benefícios inequívocos para todos. 

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Foto: P. Arechavala‑Lopez

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